sábado, 21 de março de 2009

Vale a pena ler: A versão da vida real de "Quem Quer Ser Um Milionário?"

O filme "Quem Quer Ser Um Milionário?", no qual um garoto pobre indiano vence um programa de perguntas e respostas, conquistou oito Oscar. O país é lar de um homem com uma história semelhante - Harsh Nawathe, que se transformou em milionário em 2000 em um programa de TV. Hoje ele ajuda a educar crianças nas favelas.

Harshvardhan Nawathe está sentado diante de uma pequena televisão em seu minúsculo apartamento no norte da cidade. É uma noite de domingo no início de março, uma semana após a cerimônia de premiação do Oscar, e Nawathe está assistindo a um programa de entrevistas chamado "Nós, o Povo". Os convidados no programa estão debatendo o filme "Quem Quer Ser Um Milionário?" ("Slumdog Millionaire", ou "cão de favela milionário" em uma tradução ao pé da letra), que conquistou oito Oscar. Eles -e o restante da Índia- estão discutindo o assunto há dias.

Harshvardhan, que é conhecido pelo apelido de Harsh na Índia, também foi convidado para participar do programa. O assunto é se o filme, no qual um menino órfão das favelas vence um programa de perguntas e respostas e se torna milionário é ofensivo para a Índia, ou se a Índia deve se orgulhar do sucesso do filme no Oscar. Harsh recusou o convite.

Ele desliga a TV, pega seu filho de quatro meses e o coloca em seus braços. Então ele fala com o bebê e faz caretas para ele, como os especialistas recomendam no livro "Baby Minds Brain-Building", que ele está lendo. Ele quer assegurar que Saraansch cresça inteligente, como seu pai.
Nawathe não quer ter nada a ver com toda a comoção em torno de "Quem Quer Ser Um Milionário?", pois como pai ele não tem mais tempo. Ele trabalha com crianças nas favelas de Mumbai (a antiga Bombaim) como parte de uma fundação que paga por professores, livros escolares, roupas e cursos de informática, para que nenhuma das crianças em seus programas deixem a escola sem se formar.

Provavelmente não há ninguém na Índia que tenha mais a dizer sobre "Quem Quer Ser Um Milionário?" quanto Nawathe. Ele assistiu ao filme pouco depois de seu lançamento na Índia, em janeiro. Ele e sua esposa tomaram um táxi riquixá até o cinema mais próximo, onde apenas as duas últimas filas estavam ocupadas. Como de costume nos cinemas de Mumbai, o público se levantou e cantou o hino nacional indiano antes do início do filme. Logo após seu início, quando o protagonista Jamal pula em uma fossa cheia de excremento, a esposa de Nawathe perdeu o apetite e parou de comer sua pipoca. Ela considerou a cena repulsiva e sentiu que sua honra como mulher indiana foi ofendida. Nawathe também ficou decepcionado. Mas, afinal, era apenas um filme. Um conto de fadas de Hollywood -ou Bollywood. De qualquer forma -apenas um filme. A realidade é diferente, ele pensou, minha vida é real.

Nawathe é o verdadeiro "Slumdog Millionaire". Ele foi o primeiro e até hoje o único vencedor do grande prêmio do programa chamado "Kaun Banega Crorepati" (KBC), a versão indiana de "Who Wants to Be a Millionaire?" ("Quem quer ser um milionário?" ou "Show do Milhão" na versão brasileira). Até hoje, ninguém conseguiu chegar tão longe no programa quanto Nawathe.

Há mais de oito anos, em 19 de outubro de 2000, Nawathe conquistou 10 milhões de rúpias (US$ 195 mil), o maior prêmio possível na época. Um terço de toda a Índia, ou cerca de 350 milhões de pessoas, ficaram coladas diante de seus televisores em casa, ou diante das vitrines de lojas de eletrodomésticos para assistir Nawathe, um estudante pobre na época. Até hoje, ele ainda é reconhecido nas ruas de Mumbai, onde é um herói folclórico, e sua história é muito mais popular na Índia do que o filme "de Hollywood". O que a fama faz a alguém que veio do ponto mais baixo da sociedade e repentinamente se vê no topo? Quanto tempo o sonho dura? E o que acontece depois?

Nawathe viu muitas imagens e leu muitos artigos após aquela noite do Oscar. Ele viu Rubina Ali e Azharuddin Ismail, 9 e 10 anos, os atores amadores de "Quem Quer Ser Um Milionário?", no tapete vermelho em Los Angeles. Ele os viu serem recebidos no aeroporto em Mumbai por um comboio de carros, viu guirlandas de flores serem colocadas em seus pescoços, viu o comboio percorrer a cidade até a favela onde vivem. Ela se chama Garib Nagar, ou Lugar Pobre. Ele viu imagens de Azharuddin, que interpretou o irmão do protagonista Jamal no filme, sentado em uma cadeira de plástico diante de um barraco feito de metal corrugado, fazendo os gestos bacanas que aprendeu no tapete vermelho, exibindo o sorriso que todo mundo ama, e fazendo o V de vitória com os dedos.

Ele também viu como o pai de Azharuddin bateu no menino, porque ele tinha prometido à imprensa uma entrevista e Azharuddin se cansou de responder tantas perguntas. Foi apenas um tapa, mas com consequências. Ele leu que o menino agora tem um grupo de autoproclamados conselheiros, que fazem hora diante do barraco e falam com os jornalistas, que dão rúpias aos "conselheiros" por cada história. Havia fotos do pai batendo no menino, e a história foi publicada em jornais de todo o mundo. Depois disso, Azharuddin teve que dar mais entrevistas, e a ministra indiana do Desenvolvimento da Mulher e da Criança ameaçou ordenar uma investigação do caso, e o pai pediu desculpas. Agora vizinhos enciumados e que se regozijam com a desgraça alheia vão ao barraco e discutem com os pais de Azharuddin, dizendo que seus filhos seriam melhores no papel e perguntando a respeito de onde foi parar o dinheiro que o menino ganhou com o filme e quando se mudarão para um novo apartamento.

O noticiário faz Hawathe lembrar de sua própria história. Ele sabe como é a fama seguida pela decepção. Ele poderia ensinar crianças famosas como Garib Nagar uma coisa ou duas. Ele sabe o quanto a fama é perigosa. Não perca tempo, em vez disso volte para a escola!

Nawathe, um homem modesto e com os pés no chão, de 35 anos, fez algo de sua vida, apesar da fama, tentações e dos muitos milhões. Sua vitória às vezes foi como uma maldição, porque ele não estava preparado para ela.

Ele nunca foi uma criança das favelas. Em vez disso, ele foi um daqueles meninos bem-comportados retratados nos cartazes usados para ensinar bons hábitos para as crianças nas escolas indianas, os mesmos cartazes que são vendidos em mercados de pulgas no Ocidente. Ele era um bom hindu, diligente, limpo e pontual, sempre demonstrando respeito pelos mais velhos. Ele veio de uma família de renda modesta, mas seus pais cuidaram dele. Sua mãe cuidou para que recebesse uma boa educação, e seu pai, um policial que trabalhava na unidade anticorrupção, lhe contava histórias de ninar sobre fraudes e evasões fiscais, assim como lia para ele o "Mahabharata", o épico heróico ancestral da Índia.

Há oito anos, quando Nawathe tinha 27 anos, ele queria se tornar detetive da polícia como seu pai. Ele passou meses estudando para o exame de admissão da polícia, considerado um dos mais difíceis do país, estudando críticas literárias e aprendendo sobre leis, história e ciência política. À noite, ele deixava de lado seus livros no minúsculo apartamento da família, no sétimo andar de um prédio surrado e, com sua mãe, assistia ao novo programa do qual todos estavam falando.

Seu ator favorito, Amitabh Bachchan, era o apresentador do programa, um homem grande e de voz estrondosa que os indianos chamam de "Big B" (o grande B). Um protagonista popular nos filmes de Bollywood dos anos 70, Bachchan é o ator cujo autógrafo Jamal pula na fossa para obter em "Quem Quer Ser Um Milionário?" Quando Nawathe e sua mãe assistiam ao programa, ele sabia todas as respostas, de forma que ela o convenceu a se candidatar.

Em outubro de 2000, Nawathe estava sentado no estúdio do "KBC" na Film City de Mumbai para participar de uma rodada classificatória, conhecida na Índia como "O Dedo Mais Rápido Primeiro". Foi pedido aos candidatos que colocassem vários presidentes em ordem cronológica. Nawathe levou 9,1 segundos. A câmera deu um zoom nele e Bachchan o conduziu à cadeira do candidato. Nawathe olhou para a tela, sem dizer uma palavra. Era brincadeira para ele. Ele estava bem preparado.

Em que Estado fica o Templo Tirupati, perguntou o apresentador? Em Andhra Pradesh, respondeu Nawathe. Ele já rezou lá com seus pais, ele disse.

Qual era o primeiro nome da esposa do último governador da Índia? Edwina, esposa do lorde Mountbatten, disse Nawathe. Já houve algo entre ela e Nehru, o primeiro primeiro-ministro da Índia.

Qual foi a primeira mulher a se tornar primeira-ministra no mundo? Indira Gandhi, Golda Meir, Margaret Thatcher? Resposta C: Sirimavo Bandaranaike do Sri Lanka

E então vieram duas perguntas sobre o épico heróico que seu pai costumava ler para ele na cama. Além de ter uma memória fenomenal, Nawathe estava com sorte naquele dia.

A pergunta de 320 mil rúpias tinha uma pegadinha, e Nawathe ficou desnorteado por um momento. Quem é o presidente do Paquistão? Nawathe perguntou à plateia. A resposta para 70% foi Pervez Musharraf. Mas Nawathe sabia que Musharraf tinha chegado ao poder em um golpe, e que nunca foi eleito. Tinha que ser Rafiq Tarar, sobre o qual tinha lido no jornal. Tinha que ser a resposta C, aquela com menos votos do público. Bachchan, encantado, não pressionou o candidato. "Registre", ele disse, "resposta C".

A última pergunta, a questão 15, era sobre a Constituição da Índia -algo fácil para Nawathe. "Tem certeza?", perguntou Bachchan. "Claro", respondeu Nawathe. "Este é um momento histórico", disse Bachchan. "Não vão embora. Este garoto está jogando por sua vida!" Corte para os comerciais.

Três minutos depois, Nawathe era o homem de 10 milhões de rúpias da Índia. Ao erguer desajeitadamente seus braços para o alto, confete começou a ser despejado do teto do estúdio, mulheres choravam e alguém trouxe o cheque. Após o programa, Bachchan chamou o garoto de lado e disse: "Sua vida vai mudar". "Do que ele estava falando?", pensou Nawathe, enquanto concordava com a cabeça educadamente.

'Minha vida continua'
Então sua nova vida começou. O programa era gravado, não ao vivo, e a exibição só ocorreria alguns dias depois. Os amigos telefonaram. "Você ganhou?", eles perguntaram. Não, mentiu Nawathe. Ele tinha assinado um contrato com a emissora, a Star TV, e ainda não podia dizer nada sobre a vitória. Todavia, a imprensa tomou conhecimento de sua vitória e cercou seu apartamento. A emissora o colocou em um hotel com nome falso. No hotel, cercado por sacolas de compras cheias de roupas novas, ele caminhava pelos corredores e se sentiu aprisionado por sua sorte.

O caos estourou em Mumbai na noite da exibição do programa. Multidões se reuniram na Film City, formando comboios de carros, com buzinaço e canções pop hindi em alto volume. O programa contou com uma audiência de 33%, a maior em anos.

Por todo o ano seguinte, Hawathe se sentiu como se estivesse vivendo em um filme, mas era o errado. Ele recebia diariamente cestas de cartas, nas quais os fãs pediam autógrafos, doações para seus templos, para conhecê-lo ou para se casar com ele. Todo mundo apertava sua mão, o abraçava, na esperança de pegar um pouco de sua sorte. Apesar de seu pai já estar aposentado há 7 anos, correram rumores de que ele tinha subornado o apresentador, Bachchan, que esteve envolvido em um escândalo de impostos na época. Como especialista em corrupção, eles argumentavam, o pai de Nawathe devia saber como cometê-la.

A vida de Nawathe ficou repentinamente cheia de consultores de relações públicas, que o convenceram a fazer 800 aparições, cortar inúmeras fitas em cerimônias de inauguração, aparecer em festas de filmes e eventos políticos, abrir butiques de jeans, docerias e fazer comerciais para biscoitos. Até hoje, ainda há oito shopping centers em Mumbai que levam seu nome.

Ele foi usado e transformado em marca, um exemplo vivo do ditado: "Todo mundo pode chegar lá, até você!" Ele não tinha que aceitar tudo, mas era educado demais, e talvez também tenha sido seduzido e ficado deslumbrado com todo o glamour.

Às vezes seus pais perguntavam: o que você quer fazer na vida? Ele começou a sair muito, com jogadores de críquete e astros de Bollywood. Mas eles eram celebridades e ele apenas um felizardo discreto -eram amigos fugazes. No final do dia ele voltava ao apartamento de seus pais, abria o sofá-cama e dormia ao lado de seus livros.

A certa altura, Nawathe percebeu que tinha perdido. Ele era dono de um carro, um relógio e investimentos, mas carecia de um plano. Ele ficou preguiçoso, vivendo apenas o momento. Ele ficou deprimido, escreveram os jornais.

Ele se mudou para Edimburgo para obter um MBA e aos poucos sua vida melhorou. Lá, ele não era mais uma celebridade e não era seguido pela imprensa, que foi proibida de entrar no campus da universidade. Ele concluiu seu curso com honras. Quando o superastro indiano Shahrukh Kahn foi contratado para apresentar a temporada seguinte do "KBC", os jornalistas telefonaram para Nawathe para perguntar o que achava do novo programa. "Minha vida continua", ele disse, "eu não assisto mais".

Ele queria voltar para casa, porque sabia que a fama na mídia e o fracasso que se segue são um fenômeno global, algo que acontece em toda parte. Mas em Mumbai, uma cidade de cinema apaixonada por seus astros, é uma história diferente. Em Mumbai, uma pessoa ou é consumida ou reinventa a si mesma. Se há um lugar onde é possível recomeçar, é em Mumbai, uma cidade feita para recomeços.

Nawathe mudou o número de seu celular, cancelou todos os contratos, se mudou para um pequeno apartamento, jogou fora as fotos velhas e artigos de jornal e se casou. Mas Nawathe pediu para sua mãe encontrar uma mulher que soubesse lidar com o mundo glamouroso de Bollywood sem se impressionar com ele. Antes do nascimento do bebê do casal, Sarika, a esposa de Nawathe, era uma atriz de novela. Ela diz: "Ele é muito sensível". Ele diz: "A vida é melhor com ela". Levou tempo para ele encontrar um trabalho que o deixasse satisfeito. A maioria dos empregos que lhe eram oferecidos envolvia promover algo.

Nos últimos dois anos, Nawathe é o vice-gerente geral de direitos da criança da Fundação Naandi, uma ONG indiana. Sua história poderia servir de material para um filme ainda melhor: O verdadeiro "Slumdog Millionaire" da Índia, o homem que sabe todas as respostas, está ajudando as crianças esquecidas de Mumbai a lidar de modo mais eficaz com a vida. Nawathe diz: "É hora de retribuir parte do meu sucesso". Poucas pessoas na Índia conhecem esta parte de sua história.

O problema é que ninguém está interessado. A pobreza é tabu na Índia e é considerada vergonhosa. Este é o motivo para "Quem Quer Ser Um Milionário?" ser tão controverso aqui. Por anos, o setor de turismo indiano usou o slogan publicitário "Índia Incrível". A mensagem que busca transmitir é a de que a Índia é incrivelmente bela, não incrivelmente problemática. E então surge este filme, de um diretor britânico, sobre um moleque pobre de Mumbai cuja mãe é assassinada por hindus fanáticos, um menino que mendiga e rouba e cujo irmão se torna um capanga de traficantes. Para os indianos, é um filme feito de clichês -e um insulto.

"Quem Quer Ser Um Milionário?" é particularmente ofensivo para o orgulho nacional da classe média indiana em ascensão. Os cinemas onde o filme está sendo exibido estão vazios, e muitos cartazes foram rasgados. Big Bachchan, o ex-apresentador do "KBC", não dá muita atenção ao filme, e um renomado diretor indiano, escrevendo para a revista "India Today", se queixa: "A Índia não é a Somália. Nós somos uma das principais potências nucleares. Nossos inspetores de polícia não ficam sentados em delegacias que parecem choças, e não há crianças cegas mendigando nas ruas de Mumbai. O filme é uma depreciação deliberada de nosso país".

Aravind Adiga chama o que está acontecendo atualmente na Índia de "efeito Slumdog". Ele sentiu o mesmo efeito. A história de seu romance de estreia, "O Tigre Branco", é semelhante à do filme, exceto que é contada de forma muito mais maliciosa e provocante. No romance, um homem analfabeto sobe na vida primeiro se tornando um motorista, depois um assassino e finalmente chefe de uma firma de terceirização. É sobre um novo rico na nova Índia, sobre o mundo falso dos ricos e o lado negro do boom.

Adiga, 34 anos, está sentado em um bar em Bandra West em Bandra, no lado chique do trilho do trem, mas não longe da favela onde vivem as crianças estrelas de "Quem Quer Ser Um Milionário?" Ele fala um inglês americano refinado, veste um terno e mocassins de couro, e pede uísque com gelo. As vendas de seu livro na Índia, onde foi arrasado pela crítica, foram miseráveis. Mas é um best-seller no exterior e já foi traduzido para mais de 30 línguas. "Eu o escrevi para os indianos", diz Adiga, "e eles odiaram". Nem mesmo o fato de ter recebido o prêmio Booker em Londres mudou a avaliação deles. Na Índia, ele continua sendo uma pessoa que mancha o nome do seu país, um traidor. "É um pesadelo", ele diz. "Eu insultei meu país e supostamente deveria me sentir culpado. Infelizmente, é verdade. Eu me sinto culpado. A verdadeira ditadura da Índia é a classe média. Eu mesmo sou da classe média."

E agora o país está ofendido de novo, desta vez pelo filme. Apesar de Harsh Nawathe, o verdadeiro "Slumdog Millionaire" da Índia, considerar o filme irreal, ele também entende o motivo de incomodar as pessoas. Quando ele esteve na Inglaterra, uma pessoa lhe perguntou se ainda andavam de elefante na Índia. Ele disse que nunca perdoará o inglês pela pergunta.

Talvez a história de Nawathe tenha inspirado o autor do livro "Rupees! Rupees!", no qual o filme é baseado. Nawathe não sabe. O autor, um diplomata indiano, nunca o contatou, nem Danny Boyle, o diretor de "Quem Quer Ser Um Milionário?" Nawathe vive uma vida discreta atualmente, concentrado em sua família e trabalho. Quando ele vai de carro para Kandivali, um bairro pobre, não há mais câmeras.

Ele está sentado no chão de uma sala de aula, sobre um velho tapete vermelho. Hoje é dia de prova. O conhecimento de matemática e hindi dos alunos será testado. As crianças recebem folhas de papel com várias questões de múltipla escolha. Às vezes elas puxam a manga de Nawathe e lhe perguntam qual é a resposta. Os professores anotam os resultados de cada criança em tabelas. Eles dizem que as crianças estão fazendo progresso. A organização de Nawathe oferece aulas de apoio para alunos atrasados nos estudos, um serviço altamente necessário nas escolas públicas de Mumbai, onde 50 alunos em uma classe típica repetem um mantra de informação que memorizaram enquanto o professor fala ao celular ou lê o jornal.

As crianças são de Poisar, uma favela. Elas não assistiram "Quem Quer Ser Um Milionário?" Por que deveriam? Elas estão familiarizadas com as imagens do filme. Mas admiram Nawathe. Seus pais lhes contaram sobre a vitória no programa de perguntas e respostas anos atrás. Os pais confiam em Nawathe. Eles não mais enviam seus filhos para mendigar ou coletar lixo, mas para frequentar suas aulas. Elas dizem, se alguém pode ensinar nossos filhos, então é ele. Às vezes Nawathe visita os pais em seus barracos e lhes diz: "Se eu desse a seu filho um milhão de rúpias hoje, vocês comprariam joias e carros, e então venderiam tudo de novo. A única moeda que permanece é a educação. É a única que dá retorno".

Ele planeja voar para Nova Déli no próximo dia, mas não para aparecer em um programa de televisão ou algum evento público. Este encontro tratará do futuro. Ele negociará com doadores um aumento dos fundos necessários para aceitar 8 mil crianças adicionais em seu programa de apoio. Será um bom dia -para Nawathe, para Mumbai e para a Índia.

Publicado no Der Spiegel (Jornal alemão) em 21.03.09
Postado pela professora Lourdinha Dantas

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